MÉTODO BAILARINO-PESQUISADOR-INTÉRPRETE

Atualizado: 27 de nov. de 2021






O método BPI é um processo de pesquisa e criação em dança que tem nas pesquisas de manifestações populares culturais brasileiras um fundamento para o trabalho corporal. Criado por Graziela Rodrigues, esse método tem sido utilizado dentro e fora da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), dando origem à produção de diversos espetáculos de dança e uma vasta bibliografia que o explicita e aprofunda.

O eixo Inventário no Corpo (Rodrigues, 2003) consiste no contato de quem dança com suas próprias memórias corporais a fim de reconhecer em seu corpo aspectos relativos à sua história. Com esse processo a pessoa contacta memórias corporais referentes a uma identidade corporal sua, que integra aspectos psicológicos, fisiológicos e socioculturais. Acerca desse eixo, Rodrigues afirma (2003, p.80):

[O]bjetiva-se realizar pequenas escavações em nossa história pessoal, cultural, social... recuperando fragmentos, pedaços de história que ficam incrustados inconscientemente nos músculos, nos ossos, na pele, no entorno do corpo e no “miolo do corpo”. Busca-se no corpo inteiro suas localidades e os seus afetos (não importa se são reais ou fictícios). Através do movimento, num tempo flexível, a proposta é que cada pessoa situe a sua realidade gestual, entre em contato profundo com suas sensações corporais.

Esse contato proporciona à pessoa a ampliação de sua percepção daquilo que constitui seu corpo em termos dos gestos, das sensações, das emoções e das imagens. Para auxiliar nessa elaboração, muitas vezes a pessoa é convidada a fazer uma pesquisa com os familiares à procura de ampliar seu conhecimento de aspectos de sua própria história. No caso destes encontros, este será o principal eixo explorado.

O segundo eixo do método é nomeado Co-habitar com a Fonte (Rodrigues, 2003, p. 105) e tem como principal procedimento a realização de uma Pesquisa de Campo em uma manifestação cultural popular brasileira ou em um segmento social brasileiro que se encontra à margem da cultura dominante. A escolha do local da mesma cabe à quem vivencia o método, de acordo com suas identificações pessoais. Segundo Rodrigues (2003, p. 105):

Nesta fase ocorre a saída dos espaços físicos convencionais da dança para se entrar numa realidade circundante à pessoa. O núcleo destas experiências são as pesquisas de campo, quer sejam dentro de uma cultura à margem da sociedade brasileira, porque nelas habitam corpos com outras máscaras sociais que proporcionam outros referenciais, quer sejam outros espaços cujo conteúdo/paisagem mobilizou o corpo da pessoa para investigá-lo.

Nessa etapa da pesquisa é trabalhada a sensibilidade de quem dança para ampliar sua percepção corporal daquilo que ocorre em campo e ao mesmo tempo daquilo que se passa internamente consigo mesma. Dentro dessa dinâmica, entende-se que a maior percepção de si faz com que seja possível perceber o outro com uma maior disponibilidade, diminuindo as projeções. Ressalta-se aqui que, dentro deste método, nas Pesquisas de Campo tem-se uma preocupação com a relação estabelecida com as pessoas do campo, e não com adquirir dados teóricos do campo pesquisado. É a partir do que esse contato com as pessoas da pesquisa de campo mobilizar no corpo temáticas que são reveladas aos poucos durante os processos de Laboratórios Dirigidos.

O eixo Estruturação da Personagem (Rodrigues, 2003, p. 124) é adentrado quando começam a emergir nos Laboratórios Dirigidos imagens de paisagens de forma repetida ligadas a um “alguém” que as habita[1]. Durante esta etapa esse “alguém” é desenvolvido no corpo da pessoa, por meio de diversos procedimentos indicados pela direção, o que envolve também o contato com emoções e sensações relacionadas às vivências desse corpo em cada uma dessas paisagens. Com o desenvolvimento desse eixo é elaborada uma personagem, que nesse método é entendida como uma síntese das relações entre questões individuais da pessoa com aquilo que foi contactado na Pesquisa de Campo. Rodrigues (2003, p. 121) esclarece que:

A personagem emerge do Co-habitar com a Fonte e do que essa vivência despertou na própria pessoa. Esse despertar ocorre dentro de um processo de construção e destruição da imagem corporal, no sentido abordado por Schilder (1994), como sendo uma tendência de energia de vida, criativa. As questões da plasticidade, da mutabilidade e da flexibilidade da imagem corporal são elementos vivenciados nesta fase de uma forma intensa.

Não se trata, portanto, de uma cópia mimética de alguém da Pesquisa de Campo, nem de uma montagem a partir de diversas pessoas da Pesquisa de Campo ou de uma reprodução de momentos da própria história da intérprete.

Como já salientado anteriormente, a vivência da pessoa no método se dá pelo funcionamento sistêmico entre os eixos e as cinco ferramentas do mesmo. Em conjunto, as ferramentas são sempre propostas para auxiliarem cada pessoa a perceberem aspectos de si,

A Técnica de Dança (Rodrigues, 2010) é uma ferramenta fundamental constituída pela Estrutura Física e a Anatomia Simbólica do método BPI. Pode ser vista como uma estrutura simbólica psicofísica, decodificada a partir de pesquisas das manifestações culturais populares brasileiras. Tem como perspectiva auxiliar a pessoa na leitura de movimentações quando se está em campo, no preparo corporal para a Pesquisa de Campo e na ampliação das suas movimentações e percepções quando se está em Laboratórios Dirigidos. Ela abarca questões relacionadas às percepções das imagens e intenções do corpo que dança, propiciando que a pessoa entre em contato com aspectos simbólicos da cultura popular brasileira.

A Estrutura Física e a Anatomia Simbólica consistem em uma maneira de organizar o corpo, possibilitando a ampliação da gama de movimentações em diversas dinâmicas. Tais movimentações propostas pelo método provieram das Pesquisas de Campo realizadas pela professora Graziela Rodrigues em diversas manifestações populares brasileiras, e preveem um espaço de maleabilidade para a ampliação do repertório de dinâmicas de movimento e de organizações corporais não eurocêntricas de acordo com a realização de novas Pesquisa de Campo no método. Mesmo com a vasta heterogeneidade e individualidades presentes em cada grupo de manifestações populares brasileiras, é possível perceber semelhanças no modo como se organizam esses corpos, como afirma Rodrigues (2018, p. 51):

A dança na cultura popular brasileira está inserida num amplo contexto, indo além do que consideramos o enquadramento coreográfico. As linguagens se distinguem, porém, a maneira como o corpo se dispõe e se estrutura dentro das manifestações populares brasileiras muito se assemelham.

A Estrutura Física e Anatomia Simbólica são compostas por imagens simbólicas ligadas à organização corporal que auxiliam a intérprete a ampliar a percepção do seu corpo. Dentre tais imagens está a do “corpo-mastro”, que consiste na imagem de que a coluna da intérprete torna-se um mastro votivo, prolongando-se em direção ao céu e à terra, auxiliando a percepção do eixo corporal. Outro exemplo, é que a pessoa traga para os pés a imagem e a sensação de que deles saem raízes que entram no solo, auxiliando assim a percepção do contato dos pés com o chão. É importante ressaltar que essas imagens simbólicas utilizadas no método BPI estão imersas em uma memória afetiva ancestral, ligadas às culturas populares brasileiras. Diferem-se em muito de imagens comumente usadas em aulas de dança para referir-se ao eixo do corpo ou ao peso dos pés no solo, as quais não têm esse lastro afetivo na memória cultural.




Imagem do corpo-mastro interligando terra (a partir do prolongamento do cóccix para baixo) e céu (pelo prolongamento da coluna para cima).

A Técnica dos Sentidos (Rodrigues, 2010) consiste na habilidade da pessoa em percorrer corporalmente seus circuitos internos de emoções, sensações, imagens e movimentos. É uma ferramenta de aprofundamento de contato interno e de ampliação de sensibilidade que auxilia a pessoa a sair de seus condicionamentos. Dentro da perspectiva do método BPI não há uma ordem pré-determinada para que os sentidos ocorram no corpo. Turtelli (2009, p.110) esclarece:

Graziela Rodrigues designa de "técnica dos sentidos" um procedimento realizado cotidianamente no método BPI, está relacionada a ter um domínio dos sentidos, imagens e emoções sabendo conduzi-los e deixá-los expressarem-se no movimento, sem bloquear o seu fluxo. [...] Há várias estratégias que são utilizadas no método BPI para trabalhar esta técnica. O próprio trabalho da Estrutura Física está preparando o corpo também na "técnica dos sentidos".

Os Laboratórios Dirigidos (Rodrigues, 2010) partem de um círculo feito pela pessoa em torno de si, delimitando seu espaço pessoal. Dentro desse espaço a pessoa entra em contato com conteúdos internos seus via a Técnica dos Sentidos e a Técnica de Dança. Pouco a pouco esse espaço vai sendo preenchido de movimentos, imagens, sensações e emoções, tornando-se uma ampliação do corpo da intérprete. Essa ferramenta é utilizada ao longo de todo o percurso de pesquisa no método, sendo direcionada para as necessidades da pessoa em cada uma das etapas do mesmo, como ressalta Rodrigues (2010, p. 02): “[os Laboratórios Dirigidos] são elaborados pelo Diretor de forma individualizada para que ocorra o reconhecimento da memória no eixo Inventário no Corpo, o reconhecimento do material da pesquisa em si mesmo e a nucleação da personagem”.

A vivência da pessoa em Laboratórios Dirigidos faz com que ela atinja uma autopercepção refinada, por meio da qual ela passa a identificar o seu Fluxo dos Sentidos, seus movimentos e seus entraves.

Os Registros (Rodrigues, 2010), assim como as demais ferramentas, são utilizados durante todo o processo e consistem em anotações realizadas pela bailarina acerca de suas experiências vivenciadas durante cada etapa do processo. O formato de tais anotações é maleável, podendo ser em tabelas, diários, desenhos, gravação de áudio, dentre outras e é conduzido de acordo com as necessidades para o andamento do processo de cada pessoa.

Durante o processo no método todas as ferramentas relacionam-se entre si. O método prevê que a vivência e as relações de cada pessoa com cada ferramenta é única e individualizada, cabendo à pessoa que conduz que o planejamento dos procedimentos de cada etapa leve em consideração essas individualidades.

[1] Na perspectiva do método BPI, entende-se paisagem como lugares do imaginário, ligados ou não à lembranças, são lugares onde se desenvolvem experiências de vida que vão além da intérprete, não estando no seu comando, nem no seu controle. Neste caso, a paisagem vai além de uma imagem ampla de horizonte, podendo ser composta de diversas imagens mentais, cheiros, gostos, sensações físicas, movimentos, dentre outras.




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